sábado, 5 de fevereiro de 2005

Casamento neoliberal

Pediram para que eu estreasse minhas crônicas na Educativa com um texto sobre os quarenta anos do golpe militar. Nada mais justo, afinal hoje é o aniversário do início da queda de Jango.

Mas não quero falar disso. Apesar do tema despertar meu interesse, tenho outro assunto que me chama mais a atenção. O responsável é o padre Edmundo, da paróquia da Pompéia, que soltou a frase: o casamento não combina com o mundo neoliberal.

Verdade. Casamento comunista hoje não está com nada. Esta história de casar em comunhão de bens, dividir tudo, alegrias e tristeza, saúde e doenças, deixar o eu e passar a viver o nós. Nada disso faz sentido no mundo de hoje.

Casamento neoliberal é que está na moda. Vamos à igreja e fazemos ali o grande evento. Mas não vamos esquecer de passar antes no cartório e assinar o contrato por tempo indeterminado.

Qualquer uma das partes pode romper o contrato a qualquer hora. Um item neoliberal prevê que: o que é meu é meu, o que é seu é seu. E quem tiver o melhor advogado ainda pode conseguir a interpretação: o que é meu é meu. O que é seu é meu também.

Casamento neoliberal não traz dor de cabeça. Dura enquanto for agradável para as partes. Na hora em que o investimento não está dando mais o retorno esperado, rompe-se o contrato e busca-se um negócio de melhor rentabilidade.

Casamento neoliberal parece comida em prateleira de mercado: embalagem bonita, satisfação imediata. Joga o que sobrar fora e corre pro mercado buscar outra. Mas não pega igual não. Traz um lançamento que é mais gostoso.

Vamos aproveitar as delícias do casamento neoliberal sem compromissos. E quando ficarmos velhinhos e solitários, não adianta olhar pra trás. Não vamos lembrar do golpe militar, mas também não vamos ter com quem dividir esta lembrança.

Esta foi a primeira crônica regular, que estreou no primeiro semestre de 2004 na Rádio Educativa.

3 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Wander, wander!
Legal acessar suas crônicas aqui. Valeu pela generosidade! Agora...não poderia deixar de registrar meus protestos nos dias de balão da crônica! rs
Proncevai eunumse, maiboasór cocêmereci!