segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Dicionário Uaiss

Alguém precisa escrever um novo dicionário. O Uaiss - Dicionário da Língua Mineira. Explico: poucos podem ler alguns trechos deste blog (a começar pelo nome Proncovô?) e compreender sua plenitude sem antes ter tido contato íntimo com o falar mineiro.

Não é tão complicado como parece para quem ouve pela primeira vez um mineiro típico, aquele caboclo folclórico enrolando um cigarro de palha. Mas não é tão simples como o sotaque forjado de um caipira que estamos acostumados a ver na televisão.

Para o mineiro, a última sílaba de cada palavra é sagrada, e por isso, deve ser muito bem escondida. Proncovô? Para onde eu vou?, perguntaria o paulista. O mineiro simplifica e complica ao mesmo tempo. Contradição impossível? Não acho, o computador fez a mesma coisa com a vida da gente.

Certa vez, estávamos em São Roque de Minas, uma pequenina cidade, que abriga em suas redondezas a nascente do Rio São Francisco. Pedimos informação a um senhor que estava sentado à porta de uma casa antiga. Era um daqueles folclóricos caboclos que citei há pouco. Com a atenção que o mineiro costuma dar aos visitantes, nos explicou com detalhes como chegar ao destino. Segurei o riso. Não de deboche, mas porque sabia que a Angela, ao meu lado, paulista de “erre” paulistano, não entendia uma só frase da explicação. E eu compreendia perfeitamente a junção de palavras onde a última sílaba era sempre levada ao sacrifício.

A história do Pópôpó? Pópô. É real. Em São Paulo, o diálogo burocrático seria: Pode pôr o pó? Pode pôr. Em Minas é tudo mais fácil, mais intuitivo.

Mas o Uaiss - Dicionário da Língua Mineira – não poderia se preocupar apenas com as palavras e frases mineiras. É necessário explicar a lógica inteligente do nosso povo. Ainda em São Roque, perguntamos a um frentista como chegar a determinada cachoeira. Ele nos explicou de maneira exemplar, como um guia. E perguntamos: tem placa?

- Uai! Sinuncaiu, tem


*"Caipira picando fumo", de Almeida Júnior

Nenhum comentário: