domingo, 13 de fevereiro de 2005

Início das aulas

Dona Maria chegou ao portão da escola com orgulho e emoção. Era o primeiro dia de aula do seu filho mais novo e ela acreditava que este seria diferente dos mais velhos. Os outros tiveram que estudar muito longe de casa e acabavam sempre de fora da escola.

Para os filhos de dona Maria, freqüentar a escola era apenas mais uma das inúmeras dificuldades do dia-a-dia. Normalmente a escola era longe demais de onde moravam.

Sem contar a humilhação de não ter endereço. Quando a secretária da escola perguntava, não havia como responder. Beira de rio não era endereço.

Grávida do sexto filho, dona Maria decidiu com o marido se juntar a um movimento de ocupação de uma área vazia. Era a chance de sair da beira do rio, onde pagava aluguel por um barraco minúsculo e que, a qualquer chuva mais forte, poderia ser levado pela enchente.

A ocupação era o sonho de uma terra própria para construir uma casa. Mas o orgulho de dona Maria não permitia que ela aceitasse alguma coisa de graça. Uma vez na terra, sem ter que pagar o aluguel do barraco, poderia pagar pelo lote e aos poucos fazer sua casinha.

Depois de algumas noites sob lona e depois um bom tempo num barraco de madeira e compensado, a pequena casa de alvenaria foi levantada. Na ocupação não era fácil viver. Não tinha luz, água, nenhuma infra-estrutura. Não foram poucas as manifestações, as passeatas, as reuniões com a comunidade, com a prefeitura e com o governo do Estado.

A conquista da escola veio depois da água encanada e da luz. Ao ver o filho entrar pelo portão para o primeiro dia de aula, dona Maria não pôde conter a emoção, relembrando cada dia sofrido em busca de condições dignas de vida. Com uma lágrima nos olhos, voltou para casa, para o seu endereço.


Foto de Marcelo Min

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