quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Indulto de Natal

Luciano e eu temos praticamente a mesma idade. Apesar do plantão, visitei minha família em Minas na noite de natal. Depois de quase quatro anos preso, Luciano saiu pela primeira vez da penitenciaria onde cumpre pena por roubo. Era a primeira vez que via a luz do sol sem as grades e os muros do presídio. Passar o natal com a família seria seu grande presente. Não conheço a história de Luciano, mas deve ser um destes rapazes de periferia, negro ou mulato, cor da mistura, da riqueza racial e da pobreza social brasileira. Luciano nunca teve nada além de sonhos. Quis ter dinheiro, sexo, carro, casa, uma família feliz, diversão. Encontrou drogas e o caminho que parecia ser o único para alcançar o que a TV lhe vendia. Acabou preso.

De volta às ruas, Luciano podia se redimir perante a sociedade. Aceitar calado a miséria a que foi condenado ao nascer. Visitar os cacos de sua família. Descobrir que sua presença é mais uma boca para a magra ceia. Ver seu filho que só o conheceu na prisão. Rever a mãe nova na idade, mas já velha pelos inúmeros filhos, alguns como Luciano na cadeia, outros no cemitério por bala ou moléstia.

Luciano seria um incômodo. E nestes dias na rua, quem lhe sustentaria a liberdade das drogas? Quem lhe daria uma pedra ou um baseado? Era necessário sustentar-se. Mas Luciano estava condenado. Não só à cadeia, mas também ao carimbo de presidiário, de bandido, marginal. Marginal. Sempre fora marginal, desde o nascimento. O que muda agora?

Míseros reais no camelô. A pistola de brinquedo parecia verdadeira. O alvo tem que ter dinheiro vivo. Lotérica é um banco, ali só tem dinheiro. E muito. Dá pra aproveitar bem o natal. Chegar em casa com um brinquedo para o pequeno, uma camisola para mãe, uma pedra para nóia.

Eu passei o natal com a família. Bom moço que sou, de classe média.

Luciano voltou à prisão ainda no dia 24. Lá vai ficar até cumprir a pena. E voltará outras vezes. Para ele, não existe outro destino. Não o deixaram ter outro até agora, por que vão deixar depois? Afinal, o natal é para todos, ou quase.

Um comentário:

Anônimo disse...

oi Wandeco. Vim te visitar .Ri muito dos seus proncovô, proncevai e outros mais. A crônica é muito realista. Não sobra muita alternativa para as pessoas que são carimbadas no decorrer da vida,seja como presidiário, seja como drogado, seja com qualquer tipo de exclusão que a sociedade impõe.E ela é dura com essas pessoas.

Beijos

Ana
Todos os sentidos