quarta-feira, 11 de outubro de 2006

De tragédias e hipóteses

Nos últimos dias contei um punhado de vezes uma história verídica que aconteceu comigo. A queda do avião da GOL lembrou-me de outro acidente trágico, aquele da TAM, em são Paulo, que no final deste mês completa dez anos.
Fui acordado por Eliane Santos, chefe de reportagem do Diário do Povo, me escalando pra cobrir a tragédia em São Paulo. Liguei a TV e vi as primeiras imagens do acidente e me preparei para a cobertura. Pouco antes de chegar a São Paulo, ligamos para a redação e fomos orientados a seguir para o IML, para onde seriam levados os corpos das vítimas e onde provavelmente encontraríamos as famílias das vítimas.
Minha missão: encontrar, entre os familiares ou vítimas, pessoas de Campinas e região.
Tarefa ingrata, mas importante para o jornal.
Quando chegamos ao IML não havia nenhum familiar ainda. Não sei se fui o primeiro jornalista a chegar, mas estava entre os primeiros. Algum tempo depois, vi um homem conversando com uma jornalista e contando sua história: seu irmão estava no avião. Era um fazendeiro que morava em Campinas e estava no vôo para o Rio de Janeiro onde iria assinar o contrato de compra de mais uma fazenda. Era a história que eu precisava, entrei na conversa e peguei mais detalhes.
Fui a uma cabine telefônica em frente ao IML e liguei para a redação. Passei o nome do fazendeiro e os dados para localizar outros integrantes da família. Havia conseguido endereço da fazenda na zona rural de Campinas, telefone e, se não me engano, um endereço na cidade também, próximo ao cemitério da Saudade.
Mais tarde, quando liguei para a redação, fui informado de que não conseguiram nenhum contato. Os endereços e telefone não batiam.
Questionei o irmão da vítima sobre os dados que havia me passado. Enquanto checava os dados, ele olha para o estacionamento e vê outros familiares chegando. Pede licença, sai rapidamente e desaparece entre os carros e a confusão de pessoas.
Nunca mais o vi.
O que seria seu irmão, realmente estava no avião, mas morava em Curitiba e, segundo outros familiares que apareceram no IML e reconheceram o corpo, nunca morou em Campinas e não tinha nenhum parente na cidade.
Ainda tento decifrar o mistério e para ele tenho duas hipóteses:
1) O homem com quem conversei era um olheiro do tráfico, pois no avião havia um saco de cocaína, encontrado na fuselagem. Quando sua história ficou ameaçada, desapareceu. É uma hipótese racional.
2) O homem com quem conversei nunca existiu. É a melhor hipótese.

Um comentário:

ciça disse...

Wanderley, wanderley...esses jornalistas sempre em busca de 'personagens'... também creio que ele nunca existiu.