segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

O homem da capa preta

Foi Chico Miudinho quem informou ao coronel sobre a presença do misterioso homem nas últimas madrugadas.
- Ele vai de rua em rua, Coronel. Às veis pára, fica na esquina. Óia tudo devagar, como que querenu vê o que acontece pra dentro das casa. Às veiz é mais ligero. Parece que inté já sabe o que que tem lá.
A capa preta era o mais amedrontador.
- Medo Coronel? O senhor sabe que tá pra nascê o homem que vai me botá medo.Tenho é respeito por homem como o senhor. Com esse tal eu fico é azucrinado. Sei que tá aqui com má intenção. E é por isso que vim aqui. Pra pedi permissão...
Já era a terceira noite que o homem aparecia. Sombrio, não se importava com os olhares curiosos, amedrontados ou ameaçadores que o miravam enquanto caminhava pelas ruas escuras de Itamogi.
Chico Miudinho não obteve de pronto a permissão, mas o coronel pediu para que se informasse melhor sobre o tal homem e o vigiasse. Foi à venda, à tarde, em busca de detalhes entre um gole e outro de pinga.
- Eu vi ele na rua da minha casa na noite passada. Mirei o fio de uma égua, mas o diacho foi embora ligero.
Nas ruas de Itamogi, sem luz elétrica, o homem da capa preta surgia há três noites, pelo menos. Ninguém sabia dele, ninguém o vira durante o dia, ninguém conversava com ele. Nenhum parente ou amigo.
Na quarta noite, Zé Miudinho ficou na espreita. Tomou cachaça até tarde, esperando o homem aparecer. Seguiu-o à distância pelas ruas escuras. Manteve-o na mira diversas vezes. Só puxaria o gatilho com autorização do Coronel ou caso o homem o ameaçasse. Cansado e com o sono ajudado pela cachaça, dormiu com a mão no gatilho e perdeu o homem de vista.
De manhã, bem cedinho, relatou ao Coronel que o homem zanzara pela rua de Ana Tereza, e que se detivera um bom tempo em frente à casa da moça. Disse isso, sem dizer o nome de Ana, a preferida do Coronel, que morava numa casa dele três quarteirões abaixo da Praça.
O Coronel pegou um copo de cachaça.
- Pode fazê, Chico. Num quero enxerido nenhum nas redondeza.
Chico Miudinho passou boa parte do dia limpando a espingarda para a empreitada.

***

Dona Maria das Dores não poderia ter nome mais adequado. Ficou quarenta anos sem dormir à noite. Só teve descanso no dia de sua morte. Pois foi num dia. Nem para morrer pôde fechar os olhos à noite.
Quarenta anos antes seu marido conseguiu um emprego na companhia de luz e ficaria fora uma semana, fazendo um levantamento noturno para a instalação da iluminação nas ruas de Itamogi. Dona Maria das Dores todas as noites via o marido voltando, sorriso nos lábios, chapéu na cabeça e a capa preta para espantar o frio.

5 comentários:

Anônimo disse...

nada mais banal que a tragédia alheia. mais um gole?

Ana disse...

oi Wandeco.
Triste né? é real? você é um escrivinhador muito legal.gosto do seu estilo mineiro de ser.

um beijo

debora disse...

wander
adorei seu blog
atualiza mais..
bjo

Get Up! disse...

ai meu Deus! 40 anos sem dormir à noite? que medo! bjs

Luiz Antonio Simas disse...

Wanderley, beleza de história e de blog. Voltarei aqui mais vezes e aviso, sem falta, a data do próximo eclipse. abraço