sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Protesto no aeroporto

Subiu no balcão nem sabe como. Chamou a todos em volta e começou um discurso improvisado. No dia anterior jamais imaginaria que tomaria frente num protesto. Mas a ira superava tudo.
Já passavam das sete da noite e nenhuma satisfação, nem da companhia aérea, nem da administração do aeroporto, nem da Anac, a agência que controla o tráfego aéreo brasileiro. O vôo que levaria Neves a São Paulo já estava com quatro horas de atraso e ninguém sabia informar quando partiria, se é que partiria. Com toda a crise do apagão aéreo, o aeroporto estava abarrotado. Filas intermináveis, gente se esparramando pelo chão, malas, bolsas, mochilas, lap tops se avolumando na sala de embarque. Chegou com antecedência para o embarque. Antes das duas da tarde já estava no aeroporto para o vôo que sairia às três e pouquinho. Fez o check-in e despachou a bagagem, preocupado com a confusão que já era grande. Pouco antes das três foi chamado para a sala de embarque. Acreditou, inocente, que seu vôo não atrasaria.
Agora, estava ali, com fome, cansado de ficar de pé ou sentado no chão, sem nenhuma resposta convincente e sem poder sair da sala de embarque, perdeu o pouco de paciência que lhe restava.
Do alto do balcão, Neves teve noção de quanta gente estava ali, há horas esperando os vôos. Uma multidão, todo mundo sem informações, sem saber quando chegaria ao destino. A agenda dele, para a tarde já havia sido cancelada e se demorasse um pouco mais, o jantar marcado em São Paulo também ficaria para outro dia. Tudo ia se complicando naquela confusão.
- Pessoal, começou com certa timidez na voz, nós temos que fazer alguma coisa. Não podemos ficar aqui dentro como cordeirinhos!
Apareceram de imediato as primeiras manifestações de apoio. Funcionários das companhias aéreas e da Infraero olhavam perplexos a cena. Nada mais era possível fazer. Tentar tirar o homem de cima do balcão poderia provocar uma reação violenta. Ninguém queria se arriscar.
- O que fazem com a gente aqui é um grande desrespeito. Se existem problemas, tudo bem, mas nos avisem, nos mantenham informados. Eu podia ter adiado o vôo, ficado aqui trabalhando. Mas não, perdi a tarde, já vou perdendo a noite e nem sei se amanhã estarei em São Paulo ou se ainda estarei aqui nesta sala de embarque.
Muita gente se manifestava, tentando contar também sua história. Ele pediu calma para continuar.
- Vamos tomar uma atitude, vamos fazer algo que os obriguem a resolver o problema. Não queremos nada de mais, apenas seguir nosso destino. Compramos e pagamos pelas nossas passagens!
Mais gente se aglomerava em torno do balcão. Um sujeito gordo de óculos e terno amarrotado sugeriu que saíssem daí e fossem para as salas da direção do aeroporto.
Uma mulher, já visivelmente perturbada, sugeriu que tomassem conta da torre de comando. Alguns concordaram, outros ponderaram que isso agravaria ainda mais o caos. Uma outra senhora, acompanhada de uma mais jovem, talvez sua filha, sugeriu que entrassem num avião como medida de protesto. Um rapaz com cara de quem saía ou voltava de férias, mochila suja nas costas e cavanhaque mal-formado, preferia quebrar tudo.
Do alto do balcão, Neves controlou a massa em torno dele e propôs que fossem para um avião que estivesse já na plataforma. Parecia a melhor forma de protestar e exigir mais respeito. A proposta passou com ampla maioria, embora alguns mais exaltados apoiassem o jovem que sugerira o quebra-quebra.
Se dirigiram em massa para o portão 2, onde um avião esperava há horas a autorização para o embarque. Funcionários tentaram impedir. Um deles chegou a fechar a porta de vidro, que virou milhões de cacos num piscar de olhos. As palavras de ordem do líder mal-podiam ser ouvidas na confusão. Uma funcionária de companhia aérea correu por um corredor, aos prantos. Os demais desistiram de impedir e assistiram de camarote à cena. Mais de uma centena de passageiros entrou no avião e começaram todos a ocupar seus lugares. Neves, acompanhado de outros dois passageiros revoltados foram direto para a cabine do avião. Não tocaram em nada, mas faziam inúmeros gestos para as pessoas da sala de embarque.
Muitos ainda estavam de pé dentro do avião quando chegaram representantes da administração do Aeroporto e da companhia aérea, acompanhados de pelo menos três policiais.
- Esta atitude não vai levar a nada.
- Daqui não vamos sair sem uma resposta!
- A situação só tende a complicar ainda mais.
- Não vamos sair enquanto não soubermos o horário em que saem nossos vôos.
- Escutem, não é possível fazer previsão agora, mas está tudo sob controle. Os vôos estão saindo com maior freqüência agora. Logo, logo, os vôos de vocês sairão...
- Estamos ouvindo esta ladainha desde a tarde.
- Comé que a situação está controlada, gritou um do fundo, se tem até passageiro ocupando avião? Vocês estão perdidinhos e querem enganar a gente.
Uma salva de palmas encheu o avião.
- E pra que trazer policiais? Não somos bandidos não! Só queremos o nosso direito. Pagamos pelas passagens e queremos voar!
Uma senhora começou a vaiar os policiais. Bolinhas de papel foram atiradas contra eles.
Um dos policiais cochichou no ouvido do representante da administração do aeroporto, que concordou com a cabeça e pediu para que os passageiros indicassem três pessoas para negociar.
Neves e seus dois seguidores foram escolhidos. Se recusaram a deixar o avião. A negociação foi feita na cabine. Mais de meia hora de conversa extenuante. Estavam irredutíveis. Não queriam nada mais que voar, nada além do direito de chegar ao destino depois de pagar pela passagem.
Quando a conversa esquentou um pouco mais, exigiram a saída dos policiais do avião. Com eles ali, não negociariam mais.
- Eles estão aqui apenas para garantir a segurança de todos...
- Estamos seguros aqui sem eles. Ninguém quer fazer baderna.
- Eles ajudam a manter as coisas em ordem...
- Está tudo em ordem. Ninguém está tirando nada do lugar. Estamos sentadinhos, dentro do avião, esperando para voar. O que há de desordem nisso?
Foi impossível manter os policiais. Tiveram que se retirar. Os ocupantes não sabiam, mas na sala de embarque, próximo ao portão, um verdadeiro pelotão policial havia se formado, para o caso de a situação se agravar.
Meia hora depois, o representante do aeroporto recebe uma chamada pelo rádio. Tinha novidades sobre os vôos e novos horários já estavam sendo definidos. Uma comitiva de cinco passageiros deixou o avião e na sala de embarque anotou os novos horários dos vôos. Ficaram assustados com o número de policiais que os esperavam do lado de fora.
- Não somos bandidos! A polícia devia estar lá fora pegando assaltante, assassino e não aqui, vigiando gente de bem!
De volta ao avião, os horários foram lidos e todos concordaram em deixar a aeronave. Os vôos de todos ali partiriam em breve. Neves ainda estava desconfiado. Prometeu ocupar outro avião caso houvesse novos atrasos.
Desta vez os vôos partiram de acordo com a programação. Às onze da noite já estava no hotel em São Paulo.
No táxi, do hotel para o escritório, trânsito parado. Quase meia hora para andar poucas quadras. Pela janela do Táxi conseguiu ver uma passeata. Funcionários de uma empresa faziam greve e exigiam pagamento de salários atrasados. A trope de choque acompanhava tudo de perto. Num carro de som, um sindicalista falava com os grevistas e com os paulistanos em volta.
- Não queremos nada de mais. Trabalhamos e queremos receber os salários. Queremos apenas nossos direitos.
No ar-condicionado do táxi, o ex-líder da manifestação do aeroporto pensou, mas não teve coragem de falar:
- Direito o cacete! A polícia tinha era que dar porrada em todo mundo e botar esses baderneiros pra trabalhar!

Um comentário:

Meg disse...

OI!
eSTOU AGUARDANDO ATUALIZAÇÕES!

aBRAÇOS!!