quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Eu mato

Esse post dá continuidade a "Um tiro só". Você escolhe qual quer ler primeiro.

Eu mato. Eu mato você. Não tenho saída. Não tenho pra onde ir. Ninguém quer me deixar vivo. Sou a escória. Sou o lixo. Sou podre. Todo mundo sabe que vai morrer um dia. Mas eu sei que vou morrer hoje. Eu sei. Vão me matar. Não interessa se eu soltar você, seu cagão, ou se estourar seus miolos. Vão me matar. Ninguém quer que eu viva. Eu não interesso a ninguém. Minha mãe, talvez ela. Mas já morreu. Talvez ela me queira mais lá, junto dela, do que aqui neste inferno. Pra que serve viver deste jeito? Nem minha irmã está do meu lado. Ta lá, junto dos meganha. Quer que eu me entregue. Pra que? Pra que, porra? Pra morrer na cadeia? Pra ser amassado e virado do avesso por esses polícia filhos da puta? Eu não queria estar aqui. Se você, seu bosta não tivesse complicado as coisas eu já estaria longe, com um dinheirinho pra passar uns dias. Dava pra comer, beber, arranjar umas negas. Mas você quis dar uma de esperto. Quis guardar o dinheiro do patrão. Agora está aqui. Na minha mão. Se cagando de medo. Eu mato. Eu mato você. Mas queria matar devagar. Matar depressa essa desgraça não vale a pena. Corno tem que sofrer. Por isso está aqui. Na minha mira. Se a polícia se mexe lá fora, estouro os seus miolos. Os meus vão em seguida, mas não vou sozinho. Levo você, seu filho de uma égua, junto. Aliás, você vai na frente pra abrir o caminho do inferno. É isso mesmo, mãezinha. Não adianta me esperar. Eu não tenho lugar aí perto da senhora. Deus não vai me querer. Aqui ninguém me quer. No outro mundo, só o diabo me aceita. Sou como ele, ou pior que ele. A gente vai se entender nas profundezas. Agora, esse aqui, não. Esse aqui não vale o feijão que come. Está todo mijado de medo. Já rezou hoje tudo que precisava rezar a vida inteira. Você acha que Deus vai te perdoar, seu cuzão? Nós vamos juntos pro inferno. A diferença é que eu sou amigo do diabo. Você, não. Você vai sofrer ainda mais na nossa mão. Vai sofrer muito. Mas só escapa se eu quiser. Eu vou morrer mesmo. Posso escolher se vou te levar comigo, ou não. Pro inferno eu já vou, num faz diferença te largar vivo ou morto. Aliás, matar mais um vai me dar mais respeito com o capeta. Vou chegar lá mais importante. Apesar que um bosta como você não deve contar muita coisa. Posso até te soltar. Te deixo ir, mas acabo com a minha vida. Já acabou, mesmo. Pelo menos eu decido a hora de morrer. Você sabe que só Deus pode escolher a hora da gente morrer. Pra nós dois aqui, eu sou Deus. Sou eu que vou decidir se você vai agora ou se fica mais um pouco. Eu vou decidir se vou morrer na minha própria mão ou na mão dos meganhas. Lógico que prefiro nas minhas. São mais limpas que destes filhos da puta. Nossas vidas estão em minhas mãos. A minha vida e a sua. Agora, sou mais poderoso que Deus. Eu é que vou escolher como vamos morrer. E pode ser agora, ou daqui a cinco minutos, meia hora. Não mais que isso. Daqui a pouco a polícia estoura tudo isso aqui. Vamos daqui a pouco. Deus é misericordioso, minha mãe já falava. Mas Deus num é sempre misericordioso. Só quando quer. Com este revolver na tua orelha, eu sou Deus e agora não quero saber de misericórdia. Acho que vamos juntos. Se eu quiser eu mato. Eu mato você.

Um comentário:

Lino disse...

Wanderley:
Que bom que você me achou. E aí, ainda ligado ao café?
Vim fazer uma visita e retribuir a sua. E já dei uma olhada no blog, nos textos. Depois, volto com mais tempo para ler.