quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Um tiro só

Um tiro só. Certeiro. Uma palavra e tudo acaba. Um tiro no triângulo entre os olhos e o nariz não dá ao filho da puta a chance de saber o que está acontecendo. É certeiro, destrói o cérebro em uma fração de segundo. Antes de poder ouvir o disparo, o desgraçado já era. Seria mais fácil assim. Para todos. Não faz sentido esta negociação toda. Estamos há muitas horas aqui, aguardando. Este maluco pode matar o refém a qualquer momento. Não vale a pena arriscar a vida de um inocente para poupar a de um marginal. É simples. Um tiro só. Certeiro. Pronto. Vamos para casa descansar que amanhã é um novo dia, novos assaltos, novos seqüestros, novos tiroteios. A cidade não pode parar. Mas estamos aqui há mais de doze horas. O comandante não se cansa de negociar com esse bandidinho de merda. Veja só o aparato policial aqui em volta. Sem contar ambulância, médico. Tanta gente precisando de um médico na periferia, e eles aqui parados há horas, esperando que alguém se machuque. O mundo inteiro machucado e este bandido aqui com estes privilégios. Um tiro só. Certeiro. Acaba com tudo. Quando a vítima perceber, estará livre sem saber por quê. Só depois vai saber que o homem já está morto. E bandido assim não merece viver. Por causa de alguns trocos desgraça a sua vida e quer levar a de um inocente junto. Um tiro só. Certeiro. Acabamos com isso. Risco? Lógico que há. Mas onde não há risco? Melhor o risco de um tiro de um homem treinado como eu, que ficar com um revólver carregado apontado para a cabeça, como este infeliz está agora, nas mãos de um alucinado. O risco está nas mãos de Deus. E não acredito que Deus queira que ele corra o risco nas mãos deste malandro. Melhor correr o risco pelas minhas mãos. Nos treinamentos nunca erro. Nas ruas, nunca erro. Por que erraria agora? Por um capricho de Deus? Se eu errar, é porque é a sua hora. Aí quem pode com Deus? Hoje... eu posso. Tenho na minha mira duas cabeças. Posso escolher a que eu quiser. Se eu quiser acabar com o corno que está quase se borrando nas calças na mão daquele bandidinho de bosta eu posso. Posso errar o tiro. Todo mundo erra. É uma situação de risco, de tensão. Um milímetro errado e já era. O refém vai pro espaço. Está nas minhas mãos. Eu decido quem vai pro inferno hoje. Nem o comandante decide. Nem governador. Nem Deus. Este dedo aqui decide. Você ou você? Bandido ou mocinho? É fácil ser Deus. Um tiro só. Certeiro.


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Decidi postar este texto em partes. Amanhã publicarei a segunda.

Um comentário:

Diego Moreira disse...

Fala, Wanderley!
Vim aqui fazer a visita que você recomendou e fiquei surpreso com esse texto. Gostei. Este dilema em alta tensão é interessante.
É isso aí, vamos nos visitando...
Um abração!