segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

A anuência

Oito e meia e a campainha tocou. Como pode ser tão pontual assim? Nunca namorara alguém tão certinho, com tantas regras. Definitivamente, era um namoro que não daria certo e ela já sabia disso. Era só questão de tempo para acabar com tudo.
Sem pressa, foi até a porta e sem entusiasmo o viu com um buquê de rosas na mão direita e um vaso de orquídeas na outra.
Com muita cerimônia, entregou a ela o buquê e disse que gostaria de entrar para falar com seus pais.
Sangue! Onde foi parar o sangue que até há poucos segundos corria pela face dela? Sumiu por completo. Ele queria falar com os pais! O que quer? Não tem nada para conversar. Estamos namorando e pronto.
Mas ele queria conversar. E não era apenas para conhecer. A mãe havia sido sua professora de primário. Também já conhecia o pai. Seria, portanto, uma conversa entre os pais e o pretendente da filha.
Levou-o até a sala e foi, ainda sem sangue no rosto, chamar os pais para a tal conversa. O pai não ligou muito. Quer conversar? Conversamos. A mãe ficou animada. Era um bom moço, um rapaz responsável, estudioso e muito educado.
Sentaram-se os quatro na sala. Os pais no sofá. Ela e ele, um em cada poltrona. Os irmãos dela ficaram à espreita na cozinha. Nenhum barulho para que pudessem ouvir tudo.
No começo a conversa foi genérica. Como vai? Tudo bem? Que calor, não? Até que ele entrou no motivo da visita. Disse que estava encantado com ela, que tinham muitas afinidades. Depois de um bom lenga-lenga, tascou o pedido:
- Quero pedir ao senhor a anuência para namorar sua filha.
- O quê?
- A anuência para namorar sua filha.
- Ah! A anunência... sim...
Depois de breve reflexão e uma fisgada forte de dúvida, o pai respondeu:
- Se ela quer, não vejo problema algum...
Beleza. O pai jogou para ela. Era a chance que precisava para acabar. Terminar ali o que jamais devia ter começado. Mas não teve coragem. Seria constrangedor demais para o rapaz dizer-lhe “não”, na frente dos pais. Guardou o fora para outra ocasião.
O rapaz sorriu, sem graça. Não sabia que cara fazer. Apertou a mão do sogro, deu um abraço afetuoso na sogra e convidou a namorada para uma volta. E assim, se foram os dois pombinhos (que eu não chamaria de apaixonados).
O pai ficou calado o resto da noite, apesar do sururu que se instalou na casa. A mãe ficou preocupada.
- Por que você ficou assim?
- Por nada, uma dúvida. Não sei se dei a melhor resposta.
- Lógico que deu. Ele é um bom moço.
- Não sei, não tenho certeza.
Levantou-se de uma vez. Foi até a estante, pegou o dicionário e procurou “anuência”.
Respirou aliviado.
- Ufa! Respondi certo, sim. E como é que eu ia saber o que ele estava pedindo?

2 comentários:

Cejunior disse...

Anuência rima com saliência, indecência, impudência, etc...
Coitado do pai da garota, que sofrimento!
Um abraço

freefun0616 disse...
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