sexta-feira, 9 de março de 2007

Lampadinhas chinesas

Respondi sem muito entusiasmo ao cumprimento do senhor que me desejou boa tarde e se sentou ao meu lado no ônibus.
- Acho uma falta de educação que uma pessoa se sente ao lado da gente e nem diga boa tarde.
Não falava de mim, que retribuí seu cumprimento, mas mesmo assim fiquei desconcertado. Havia lhe dado pouca atenção.
Era um senhor que já beirava os 80 anos. Magro, sentou-se ao meu lado e puxou conversa. Passávamos ao lado do Centro de Convivência e havia uma grande ávore (seria uma figueira?) repleta de lampadinhas chinesas. Mas era dia e víamos só os fios.
- Aqui deve ficar bonito à noite, quando tudo fica iluminado.
Concordei, embora nem lembrasse de como era aquela árvore iluminada.
- Bonito está em frente à Sanasa, continuou. Iluminaram a frente do prédio inteirinha. Está a coisa mais linda...
O prédio da Sanasa, a empresa de abastecimento de água de Campinas, é um grande bloco horizontal azul espelhado.
Outro senhor, do banco da frente, um pouco mais novo, e que já havia discutido com o cobrador, virou-se bruscamente em nossa direção.
- Tem que ficar bonito, mesmo. Com o preço que está a água!
O senhor ao meu lado calou-se, encabulado. Não havia notado o lado obscuro das luzinhas chinesas. Fizemos um curto silêncio até que eu puxei novamente o assunto.
- Então a Sanasa ficou bonita? Quero passar um dia lá para ver como ficou.
Retomamos a conversa sobre a beleza do prédio enfeitado para o natal. O senhor ao meu lado reanimou-se, seus olhos voltaram a brilhar. Falou-me de outros lugares bonitos, da beleza do natal, da festa e tudo o mais.
Desceu alguns pontos à frente.
Quando eu beirar os 80, não vou me preocupar com o preço da água. Não terei tempo para ficar mais rico, nem mais pobre.
Vou é irradiar a felicidade, como se meus olhos fossem uma porção de lampadinhas chinesas no dezembro de minha vida.

7 comentários:

Cejunior disse...

Acho que chegar aos 80, com saúde, disposição e andando numa boa de ônibus como o seu vizinho de banco é uma dádiva.
E você tem toda razão: isso lá é idade para se preocupar com preço de água ?
Um abraço

Ana disse...

oi Wandeco.
Saudade de você.Vou dar uma olhada nas sua estórias.Como anda a vida?e a Ângela? Cadê o baby??????

Estou ensaiando um retorno ao meu blog.

quem sabe né?

Lívia disse...

Eu sinto uma ternura tão grande por velhinhos(as), que sempre gosto de dar papo pra eles. Especialmente quando usam chapéu (ou boina) e guarda chuva, e sapatos 752 bem lustradinhos (lembram meu pai).

Cejunior disse...

Ih, a Livia me lembrou uma coisa interesssante: eu estava no exército, isso há uns cem anos atrás, e todo dia, por volta das 17:00 horas, passava na porta do quartel um senhorzinho, todo empertigado, com um sobretudo cinza, uma boina preta virada de lado na cabeça e quando estava frio ou mais úmido, um cachecol xadrez protegendo o pescoço.
Olhávamos o senhorzinho passando altivo e brincávamos entre nós que lá ia o velho "maquis", herói da resistência francesa na 2ª guerra...
Por muito tempo, para mim, velhice tinha essa cara. Agora que estou chegando nela, descobri que o rosto da velhice é o meu! Que triste!!!

Vivien disse...

velhinhos me comovem, sempre.;0)

Diego Moreira disse...

Wanderley, peço licença pra passar por aqui e dizer que gostei muito desse texto. Bela forma de enxergar a vida. Confesso que não costumo dar muito papo pros velhinhos mas gostaria de ter mais pessoas como esse aí, do ônibus, ao meu redor.
Um abraço solidário!

freefun0616 disse...
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