segunda-feira, 13 de julho de 2009

O radinho de Vovó Francisca

Ganhei meu primeiro rádio há 25 anos. Mas demorei um tempo para buscá-lo. Era um presente de minha vó, que pediu para que entregassem a mim quando morresse. Na verdade, ela me devolvia o presente que meus pais deram a ela um tempo antes e fui eu quem o levou numa manhã. Vovó Francisca ficou muito feliz de poder ouvir modas de viola e o Zé Bétio.

Eu tinha 11 anos e o rádio nem me atraía muito, operava em ondas médias e curtas, seis faixas. Eu nem tinha idéia do que era aquilo, mas não pegavam as emissoras FM de Ribeirão Preto que eu mais gostava.

Mas naquele radinho comecei a ouvir Afanásio Jazadji, Gil Gomes e a Praça é Nossa -  ou da Alegria ainda, não me lembro. A velhinha surda, que eu já conhecia da TV, era uma delícia em meio aos chiados. Afanásio e Gil Gomes me faziam companhia à noite, antes de dormir, já no escuro. Com o tempo deixei de apreciar. Na faculdade de jornalismo, passei a não gostar. Ao longo do tempo, comecei a detestar o trabalho que faziam e hoje acho que Afanásio presta um desserviço à sociedade à medida que mais estimula do que combate a violência.

Foi também naquele radinho, que em 1986, acompanhei a final do Brasileiro e ouvi e vibrei com o São Paulo campeão em cima do Guarani. Não me lembro direito, não sei se o jogo não foi transmitido ou se acabou a força em Itamogi. Foi o rádio de minha vó que me salvou.

Na adolescência, desmontei não sei quantas vezes o aparelho até fazê-lo pifar de vez. Interessava-me, mesmo, a FM e o rock dos anos 80, em plena efervescência (hoje é o Dia do Rock, por sinal).

Depois da faculdade de Jornalismo, fui trabalhar na Educativa FM de Campinas. Nem imaginava que tanto tempo depois de ganhar o radinho de minha vó, estaria eu ajudando a fazer o rádio. Hoje, sou professor de jornalismo, de radiojornalismo. Não me esqueço do último desejo de minha vó. Ontem, ela completou 25 anos que se foi e me deixou o seu radinho.

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