sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O velho opalão

Tio Tonico é um caboclo mineiro de primeira. Cabelos já grisalhos, ainda sustenta o bigode que o acompanha desde que me lembro de sua existência. Além do bigode, outra marca de tio Tonico era o opalão cor de abóbora, ou laranja, ou algo que ficava entre as duas cores.

Pois um dia, de tanto ouvir os filhos reclamarem que estava na hora de pegar um carro mais novo e passar o velho opala pra frente, Tio Tonico resolveu se separar do carrão. Trocou o opala que foi seu por 18 anos e comprou um Uno Mille. Uma troca e tanto. Vender o opala 74, câmbio em cima, e pegar um uninho zero quilômetro, era uma upgrade considerável.



Pois meu tio gostou da troca, quem não gosta de carro cheirando a novinho. Mas um dia, passou em frente ao estacionamento onde trocou de carro e viu o opalão, lindo, brilhando como ele nem se lembrava mais como era. E viu o preço: menor do que ele conseguiu na troca pelo Uno. Era domingo, e tio Tonico foi pra casa com uma certeza. No dia seguinte voltaria ao estacionamento e ia comprar o opalão de volta. Tão fácil, o carro ainda estava em seu nome, não precisava nem gastar com transferência. Nos 18 anos em que ficaram juntos, o opalão nunca o deixou na mão. Lógico que era um carro velho, mas de boa mecânica e valente.

Na segunda-feira, logo pela manhã, quando ainda planejava a ida ao estacionamento, recebeu uma visita inesperada. Um funcionário do estacionamento vem a sua casa pra reconhecer firma no documento do carro. O opalão cor de abóbora, ou laranja, havia sido vendido.

Tio Tonico foi ao cartório, reconheceu a firma e voltou pra casa, onde estava o uno. Alisou a lataria do carro. Sim, ele tinha um carro novo, mas não teria, nunca mais, seu velho companheiro opalão.


Publicado originalmente neste Proncovô em 6 de abril de 2005.

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